segunda-feira, 28 de março de 2011

Presunção e grandeza real

Na relva verdejante, uma violeta colorida exalava seu perfume. Um animal invejoso, que por ali passava, a ameaçou: "Vou te esmagar e acabar com a tua beleza."
 
Ela não se perturbou e respondeu: "Se me esmagares, eu te abençoarei com o meu perfume e viverei impregnada em ti."
 
Na noite calma, o pirilampo divertia-se a acender e apagar sua lanterna. Sentia-se feliz em trazer os raios das estrelas nas pequenas asas.
 
O sapo, que coaxava à beira da lagoa, o invejou e ameaçou: "Vou te cobrir de baba peçonhenta e vou apagar a tua luz."
 
O pequenino inseto sorriu e contestou: "Se me cobrires de peçonha, eu a sacudirei toda, libertando-me. Depois, prosseguirei a brilhar."
 
A flauta, recostada em um estojo de veludo, zombou de um ágil rouxinol preso em uma gaiola de madeira: "Sou maior do que tu e mais nobre. Tu estás preso em uma gaiola de madeira. Eu, repouso tranqüila em rico estojo de veludo. Sou toda de prata, passeio por mãos perfumadas e recebo os beijos do artista que me sopra. És um pobre coitado!"
 
A avezinha feliz, embora prisioneira, respondeu: "Não te invejo, amiga. É verdade que és muito preciosa, bela e forte. Eu sou uma pequena ave, frágil e prisioneira.
 
Apesar disso, desfruto de alegria porque posso cantar, quando queira. Não preciso esperar que ninguém me sopre." E, embevecida, pôs-se a trinar.
 
A vela mal foi acesa, tremeluziu e, embora espalhando fraca luminosidade, espancou as trevas próximas.
 
Orgulhosa, passou a se gabar de ter vencido a sombra.
 
Uma estrela de primeira grandeza, fulgurando no infinito, prosseguiu espalhando a sua intensa luz, sem nada comentar.
 
O pavio, na lamparina, dizia de forma petulante ao azeite em que estava mergulhada: "Como és pegajoso e desagradável. Nem podes imaginar o quanto te desprezo."
 
O combustível, atento ao seu mister, nada disse. Continuou a servir, humilde, permitindo que a lamparina ardesse e brilhasse, porque essa era a sua tarefa. E a desejava cumprir com alegria.
 
O regato corria risonho por entre as pedras miúdas. Olhando para suas margens, acusou a vegetação abundante de lhe roubar o líquido precioso.
 
Mãos irresponsáveis vieram, um dia, e arrancaram violentamente toda a vegetação. O córrego sorriu, satisfeito.
 
Tempos depois, sem a defesa natural que a sombra lhe propiciava, a ardência do sol absorveu a água e o regato desapareceu.
 
O orgulho e a soberba são sempre ilusórios. Fenecem como a erva no campo, ante a canícula insistente.
 
A humildade, por sua vez, permanece e felicita.
 
Sê tu aquele cuja importância ninguém nota. Mas, quando se faz ausente, de imediato tem sua ausência percebida.
 
Cumpre, assim, com o teu dever. E, não te preocupes com a presunção dos que estão enganados; daqueles que acreditam que são as criaturas mais importantes da terra.
 
Continua a agir no bem, a servir sempre.
 
Age com inteireza e nunca passarás, mesmo que a morte te arrebate ou te ausentes para outras paragens, por alongado tempo.
 
***
 
Mantém acesa a luz do entusiasmo em tuas realizações e, sabendo-te fadado à grande luz, deixa que brilhem as tuas aspirações nobres.
 
Se não podes ser o pão que repleta as mesas, sê o grão de trigo e confia no futuro.
 
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